Entendendo Game of Thrones – GOT e os fortes

Você esperava que Ned Stark fosse o grande herói de uma saga ao começar a ler As Crônicas de Gelo e Fogo ou a assistir Game of Thrones? Pois você não era o único. A primeira temporada da série, assim como o primeiro livro, trata justamente de guiar a pessoa a tal conclusão, apresentando a perspectiva de Ned Stark, seu senso de justiça, sua honestidade, seus valores de uma maneira geral, que caracterizam os heróis.

GOT tem uma maneira peculiar de lidar com as obviedades, como heroísmo: a saga escapa delas de maneira brilhante. Dois personagens fortes e temidos morrem antes de Ned na primeira temporada para surpresa de muitos. São eles Khal Drogo e Robert Baratheon. O primeiro foi apresentado como um grande guerreiro dothraki, que nunca havia perdido um combate sequer (e que por esse motivo mantinha uma trança de cabelo tão grande). Ao casar-se com a frágil Daenerys Khal Drogo representava a força, a segurança, a liderança, já que para ser o khal era necessário ser forte, pois os dothrakis só seguiam os fortes. E a imagem de Drogo era a da própria agressão, tanto no seu modo de falar como no seu modo de relacionar-se com Daenerys. A forma com que Drogo matou Viserys (derramando ouro derretido sobre sua cabeça) e que resolveu, logo depois, ‘dar’ a Daenerys o trono, foi o clímax dessa construção do homem temido. Drogo representou na sua fala grande ameaça, pois afirmou ao povo que mataria soldados, saquearia cidades, faria escravos e estupraria pessoas só para dar o trono a sua amada, que carregava seu filho no ventre.

Esse Drogo ameaçador morre com uma infecção, causada por um corte em um combate que venceu. Morre lentamente, com Daenerys esperando sua recuperação, afinal de contas, casara-se com o temido khal. É um banho de água fria a morte de Drogo, já que o povo o largou e Daenerys ficou apenas com poucos seguidores.

Robert Baratheon, por sua vez, era conhecido como um dos maiores guerreiros de Westeros, que havia, com a sua rebelião, tomado o trono do Rei Louco, Aerys. Robert era forte ao falar, ríspido e direto, era sempre claro em suas decisões e era respeitado por seu amigo Ned e por grande parte das grandes Casas de Westeros. Quando Ned ingenuamente expõe o que sabe a Cersei e ameaça contar a verdade sobre seu relacionamento com Jaime a Robert espera-se que o Rei tenha uma reação impulsiva, como era de costume. Mas Robert, no entanto, não sobrevive a uma ferida, causada por ataque de um javali em uma caçada. O grande guerreiro Robert da casa Baratheon é morto por um javali. Sutil, não?

A principal morte, no entanto, é a de Ned, claro protagonista da saga até o momento de sua decapitação. A morte de Ned ensina ao espectador/leitor que não adianta ser honrado, justo, forte e verdadeiro, pois se uma espada passar pelo seu pescoço sua cabeça cairá da mesma forma. Apenas isso. É como se G.R.R. Martin dissesse ‘se você espera ver um herói como esses procure outra história, porque essa não fabrica heróis assim’. Ned morre como um traidor perante o povo, sem a sua honra, sujo e desgranhado, completamente diferente do Lorde Stark, de Winterfel, que nos foi apresentado no primeiro episódio.

Há outras decepções como a fácil captura de Jaime Lannister, conhecido como o melhor espadachim de Westeros e as (supostas) mortes de Syrio Forel e Benjen Stark. Mas GOT é assim, onde os fortes também perdem, não apenas suas batalhas, mas também suas cabeças.

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