Entendendo Game of Thrones – Jaime Lannister é do bem?

Se há atualmente uma série que divide a opinião das pessoas quanto aos seus personagens essa série tem o nome de Game of Thrones. O Tyrion é bom ou mau? E o Stannis? E o Jaime?!

Jaime Lannister é o personagem que mantém uma relação incestuosa com a sua irmã e que atirou uma criança que descobriu esse segredo do alto de uma torre. A criança não morreu, mas ficou desacordada por semanas e ao acordar não movia mais as pernas. Jaime Lannister trai, mata um primo em troca de uma fuga, assassina o rei que havia jurado proteger. Sendo assim Jaime Lannister é mau, certo? É um vilão, não?

Durante a terceira temporada da série, no entanto, as oportunidades dão voz a Jaime para se explicar por que assassinou Aerys, o Rei Louco (fazendo com que todos se sensibilizassem), permitiu transparecer o quanto ama e se importa com a sua irmã, deixou claro que vem criando um grande carinho por Brienne, salvando a sua vida usando da sua influência. Mas ele não era mau?

Primeiramente devemos perceber que GoT não é uma obra destinada ao público infantil, pelo fato de essas se basearem em princípios de dualidade, sobretudo na dupla bom/mau, geralmente incorporada nas personalidades do herói e do vilão. Game of Thrones, dessa maneira, se faz como uma obra não-maniqueísta, ou seja, não cria representações sobre características definidas com o caráter de bom ou de mau.

Mas de que maneira, então, agem esses malditos personagens? Simples! Agem de acordo com seus próprios interesses. Essa é a maior característica dos personagens de GoT! Quem não entender isso terá grandes dificuldades em compreender As Crônicas de Gelo e Fogo. Basta nos lembrar que o nosso ‘herói’ do início da saga era ingênuo, tinha um bastardo e teve a cabeça cortada. Quanta honra pra um herói só!

Vamos pensar nos personagens de The Walking Dead (apenas a série, não a HQ) agora para compararmos. Rick Grimes era um policial correto que se viu acordando do coma em meio a um apocalipse zumbi. Junto de um grupo composto por Glenn, Maggie e Hershel forma uma equipe de mocinhos, que se preocupa com o bem alheio, que passou uma temporada inteira sem matar ninguém! Isso mesmo! Esses citados não mataram uma pessoa sequer durante toda a terceira temporada! Porque eles são mocinhos e agem como tal, mesmo não fazendo o menor sentido. O Governador, por sua vez, se diz mau, faz pose de mau, fala que vai fazer várias maldades (quando fala a verdade e não a mentira), que mente a todo instante, manipula os seus protegidos e que, no fim das contas, não faz nem ideia de qual maldade vai fazer, só sabe que quer fazer alguma maldade. Ficou clara a diferença? TWD tem dois lados bem estabelecidos e polarizados. Dois personagens transitavam entre esses polos, Merle e Michonne, e acabam sendo rotulados como ovelhas negras por todos os lados. Ambos, com certeza, podiam perfeitamente viver no mundo perigoso e cheio de traição de GoT.

Bem, de qualquer maneira temos que ter em mente que vilões ou mocinhos não existem em Game of Thrones. Quem se interessar por mais séries em que o bem e o mal se confundem sugiro Sons of Anarchy (do FX), Homeland (do Showtime) e a melhor de todas, Breaking Bad (do AMC). Divirtam-se, não criem laços com os personagens, não confiem neles, eles só querem o melhor para si próprios.

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Entendendo Game of Thrones – GOT e os fortes

Você esperava que Ned Stark fosse o grande herói de uma saga ao começar a ler As Crônicas de Gelo e Fogo ou a assistir Game of Thrones? Pois você não era o único. A primeira temporada da série, assim como o primeiro livro, trata justamente de guiar a pessoa a tal conclusão, apresentando a perspectiva de Ned Stark, seu senso de justiça, sua honestidade, seus valores de uma maneira geral, que caracterizam os heróis.

GOT tem uma maneira peculiar de lidar com as obviedades, como heroísmo: a saga escapa delas de maneira brilhante. Dois personagens fortes e temidos morrem antes de Ned na primeira temporada para surpresa de muitos. São eles Khal Drogo e Robert Baratheon. O primeiro foi apresentado como um grande guerreiro dothraki, que nunca havia perdido um combate sequer (e que por esse motivo mantinha uma trança de cabelo tão grande). Ao casar-se com a frágil Daenerys Khal Drogo representava a força, a segurança, a liderança, já que para ser o khal era necessário ser forte, pois os dothrakis só seguiam os fortes. E a imagem de Drogo era a da própria agressão, tanto no seu modo de falar como no seu modo de relacionar-se com Daenerys. A forma com que Drogo matou Viserys (derramando ouro derretido sobre sua cabeça) e que resolveu, logo depois, ‘dar’ a Daenerys o trono, foi o clímax dessa construção do homem temido. Drogo representou na sua fala grande ameaça, pois afirmou ao povo que mataria soldados, saquearia cidades, faria escravos e estupraria pessoas só para dar o trono a sua amada, que carregava seu filho no ventre.

Esse Drogo ameaçador morre com uma infecção, causada por um corte em um combate que venceu. Morre lentamente, com Daenerys esperando sua recuperação, afinal de contas, casara-se com o temido khal. É um banho de água fria a morte de Drogo, já que o povo o largou e Daenerys ficou apenas com poucos seguidores.

Robert Baratheon, por sua vez, era conhecido como um dos maiores guerreiros de Westeros, que havia, com a sua rebelião, tomado o trono do Rei Louco, Aerys. Robert era forte ao falar, ríspido e direto, era sempre claro em suas decisões e era respeitado por seu amigo Ned e por grande parte das grandes Casas de Westeros. Quando Ned ingenuamente expõe o que sabe a Cersei e ameaça contar a verdade sobre seu relacionamento com Jaime a Robert espera-se que o Rei tenha uma reação impulsiva, como era de costume. Mas Robert, no entanto, não sobrevive a uma ferida, causada por ataque de um javali em uma caçada. O grande guerreiro Robert da casa Baratheon é morto por um javali. Sutil, não?

A principal morte, no entanto, é a de Ned, claro protagonista da saga até o momento de sua decapitação. A morte de Ned ensina ao espectador/leitor que não adianta ser honrado, justo, forte e verdadeiro, pois se uma espada passar pelo seu pescoço sua cabeça cairá da mesma forma. Apenas isso. É como se G.R.R. Martin dissesse ‘se você espera ver um herói como esses procure outra história, porque essa não fabrica heróis assim’. Ned morre como um traidor perante o povo, sem a sua honra, sujo e desgranhado, completamente diferente do Lorde Stark, de Winterfel, que nos foi apresentado no primeiro episódio.

Há outras decepções como a fácil captura de Jaime Lannister, conhecido como o melhor espadachim de Westeros e as (supostas) mortes de Syrio Forel e Benjen Stark. Mas GOT é assim, onde os fortes também perdem, não apenas suas batalhas, mas também suas cabeças.